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Soro de leite controla glicemia

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Um dos maiores vilões ambientais da indústria láctea quando descartado sem o devido tratamento, o soro de leite, mostrou ser, segundo descobertas realizadas por pesquisadores da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Universidade Estadual de Campinas (Lafop-Unicamp), um aliado eficiente no controle da glicemia, em ratos.

O soro de leite bovino é composto, aproximadamente, de 93% de água, 5% de lactose, pequenas quantidades de vitaminas, 0,3% de gordura, 0,2% de ácido lático e 0,9% de proteínas de alto valor biológico, o que o torna uma excelente fonte de proteínas a baixo custo, pois possui boa disponibilidade de aminoácidos essenciais, principalmente lisina e treonina, que são importantes no crescimento  e no reparo tecidual, o que pode ser particularmente importante para idosos, indivíduos fisicamente ativos e aqueles que objetivam manter ou perder peso.

Diversas funções são atribuídas a essas proteínas, tais como o crescimento e a produção de massa muscular, seja em atletas ou em pessoas com depleção muscular por processos patológicos, anti-hipertensiva e anti-ulcerosa. As mais recentes delas, descobertas pelos pesquisadores brasileiros, se aplicam à redução da hiperglicemia, proteção celular e diminuição do estresse, efeitos conseguidos a partir da hidrólise enzimática dessas moléculas.

Os três projetos de pesquisa se basearam em testes com ratos para determinar, qual o efeito do consumo de hidrolisado de soro de leite no metabolismo energético e estado redox em ratos exercitados e das proteínas do soro do leite, nos biomarcadores HSP e parâmetros bioquímicos e daquelas intactas e hidrolisadas, nos transportadores de glicose 1 e 4. Os resultados geraram dois artigos que foram publicados na revista Food Chemistry, nos meses de fevereiro e agosto desse ano.

A descoberta que mais chamou a atenção foi a da capacidade das proteínas do soro de leite hidrolisadas (PSLHs) de estimular a utilização da glicose circulante e, consequentemente, a glicogênese, ou seja, a síntese de glicogênio – principal forma de reserva de glicose nos animais – nos músculos esqueléticos e no cardíaco.

Devido a uma incapacidade metabólica do indivíduo diabético ou hiperglicêmico, ele não consegue baixar seu nível glicêmico, fato que pode ser decorrente  da falta de insulina ou do não funcionamento do GLUT-1 – principal transportador de glicose. De acordo com os experimentos com ratos, essas proteínas possibilitam uma via diferente para a retirada da glicose da circulação e sua entrada nas células, constituindo a ativação das moléculas de GLUT-4, as quais migram para a membrana plasmática, ficando disponíveis para a captação da glicose circulante e trazendo – a para dentro da célula.

Quando alimentados com diferentes tipos de proteínas,  ficou constatado que a ativação do GLUT-4 foi o dobro nos animais alimentados com PSLHs, em relação àqueles que tiveram a caseína ou  PSLs na dieta.

Segundo os estudos, a ingestão das proteínas de soro de leite hidrolisadas provocou nos animais um efeito citoprotetor, ao agir sobre a concentração das proteínas endógenas de proteção, chamadas heat shock proteins (proteínas de choque térmico), ou HSPs. Também conhecidas como chaperonas moleculares, elas são responsáveis pelo correto dobramento de proteínas e pela prevenção da agregação protéica.

De acordo com o pesquisador da Unicamp  e coordenador dos projetos, Jaime Amaya Farfan, em entrevista à Agência FAPESP, certas condições de estresse chegam a provocar a perda da conformação original e da funcionalidade de proteínas muito sensíveis, como os receptores e os transportadores. Dada a sua constante vigilância sobre a conformação correta de polipeptídios e proteínas, as HSPs são também conhecidas como chaperoninas. Os aumentos no conteúdo ou na expressão das HSPs conferem citoproteção e favorecimento ou restauração do equilíbrio homeostático.

Os experimentos também revelaram aos cientistas que a concentração da enzina glutaminase  havia diminuído nos animais alimentados exclusivamente com as PSLHs, o que segundo Farfan, pela literatura pesquisada,  foi um bom indício. Sendo a  glutamina a principal fonte de energia para os intestinos, era de se esperar que animais submetidos a estresse causado pelo exercício físico tivessem a glutaminase aumentada, por causa da maior demanda dos intestinos. O fato de a glutaminase estar diminuída sugeria que os ratos alimentados com PSLHs estavam muito menos estressados pelos exercícios exaustivos do que os outros grupos.

A equipe de cientistas observou que quando ocorre a combinação entre HSPs produzidas durante os exercícios e as PSLHs presentes na dieta, os efeitos se complementam, explicando o efeito antiestresse. Os animais que foram submetidos a um regime exaustivo de exercícios, apresentaram rendimento no trabalho físico muito superior aos alimentados com caseína ou mesmo com PSL. Nesses animais, o efeitos antiestresse foi explicado pela propriedade citoproterora das PSLHs. Já a ativação dos GLUT-4 explica seu efeito poupador do glicogênio muscular nos animais com atividade física exaustiva e de estímulo à síntese e acúmulo de glicogênio nos sedentários.

O próximo passo da pesquisa é realizar os testes em humanos para testar o efeito dessas proteínas no controle da hiperglicemia de pessoas que não podem praticar exercícios, assim como sua propriedade citoprotetora.

03/09/2013
Arlei Maturano - Equipe Biotec AHG
 

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