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Brasileiros criam vacina contra papilomavírus humano

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Pesquisadores do Departamento de Microbiologia da Universidade de São Paulo (USP) estão desenvolvendo o que pode ser uma solução para prevenir e até curar infecções causadas pelo vírus HPV, o papilomavírus humano. 

A equipe, liderada pelo pesquisador Luiz Caros Ferreira, já produziu uma vacina de DNA capaz de impedir a infecção pelo vírus e impedir o crescimento de tumores em 40 por cento dos casos. “Queremos ainda atingir cem por cento de imunização”, lembra Ferreira.

O HPV, ou papilomavírus humano, possui mais de 90 tipos diferentes já catalogados, mas o tipo 16 (estudado pelos cientistas da USP) é o mais letal. No corpo humano, o HPV geralmente se instala nas células do tecido epitelial, causando o surgimento de verrugas, muitas vezes na região da boca e genital (nesse caso, chamadas de condiloma acuminado).

O câncer de colo de útero, causado também pelo HPV, é a segunda maior causa de mortes por câncer feminino no mundo (o primeiro é o de mama). Por ano, mais de 280 mil mulheres morrem deste tipo de câncer, sendo 8 mil somente no Brasil.

A pesquisa

A vacina de DNA produzida pelos pesquisadores baseia-se no estímulo das próprias células de defesa do organismo para que possam identificar as células infectadas pelo vírus e assim destruí-las antes que surjam tumores ou que o vírus se espalhe para outras células e regiões do corpo.     Os pesquisadores utilizaram um plasmídeo (molécula de DNA utilizada para inserir genes em uma célula), e nele inseriram trechos de dois genes do HPV, o E6 e o E7, e genes que expressam proteínas do herpes genital. Os dois genes são reguladores do crescimento das células da pele, através da produção de proteínas que impedem a ação de duas outras proteínas (a P53 e a PRb), as verdadeiras responsáveis pelo ritmo de multiplicação das células.

Quando o HPV invade as células, ele desregula as funções de crescimento do tecido, e prolonga a vida das células que infectou, provocando a multiplicação de células defeituosas, a formação de verrugas e, em alguns casos, tumores nas mulheres infectadas.

Nos ratos, a aplicação da vacina fez com que os plasmídeos induzissem nas células a ativação dos genes E6 e E7, acionando uma resposta do sistema imunológico dos animais. A expressão genética causada pelo produto permitiu aos linfócitos (células de defesa do organismo) identificar e eliminar todas as células com expressão semelhante às infectadas pelo HPV.

"Nesse ponto, nossa vacina se diferencia da maioria das vacinas terapêuticas, pois não há produção de anticorpos", diz o pesquisador. O que acontece, na realidade, é que as células de defesa “aprendem” a atacar as células defeituosas. À partir daí, o próprio organismo se encarrega de eliminar estas células, inclusive as tumorais.

A importância da nova vacina segundo Ferreira, é que ela permite que pacientes que não apresentam respostas imunológicas ao HPV (cerca de 10% das mulheres), possam ser imunizadas. No futuro, talvez possam ser desenvolvidas vacinas específicas para cada tipo de paciente, de acordo com suas respostas imunológicas.

"Com o avanço da genômica, poderemos fazer um teste e perceber a deficiência da paciente em apresentar uma resposta adequada do sistema imunológico para combater o vírus. Essa pessoa é candidata a receber uma vacina que estimule a resposta citotóxica em caso de infecção", afirmou.

Pela pesquisa, os resultados atingidos até agora são apenas dados preliminares. Cinqüenta camundongos já foram imunizados, mas a equipe pretende ainda testar novas configurações de vacinas (alterando os genes expressos) e doses. Eles querem conseguir que 100% dos ratos com tumores tenham o câncer diminuído pela ação da vacina.

Além de uma vacina para o HPV, os pesquisadores pretendem também produzir outras vacinas com o mesmo principio, desta vez contra o vírus do herpes, presente na maioria da população. “O uso de uma vacina de DNA apenas contra o HPV16, como a que desenvolvemos, é bastante restrito” afirma o pesquisador.  “Vejo o processo como uma forma de adquirir conhecimento e desenvolver tecnologias no Brasil", conclui.    A herpes, assim como o HPV, é uma doença oportunista, que pode desenvolver-se de acordo com o estado imunológico do paciente. Em soropositivos, a herpes genital costuma manifestar-se causando feridas difíceis de cicatrizar, e que aumentam os riscos de transmissão do vírus.  
14/10/2004
 

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