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Membrana amniótica trata cirrose

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O fígado é o maior órgão do corpo humano e está localizado no lado superior direito do abdômen, protegido pelas costelas. Pesando cerca de 1,5 kg no homem adulto e na mulher adulta, entre 1,2 e 1,4 kg, é a mais volumosa de todas as vísceras. É nesse órgão que é produzida a bile, substância que é levada ao intestino delgado para ajudar no processo de digestão, alguns hormônios, proteínas e enzimas que mantêm o metabolismo do corpo funcionando normalmente, assim como substâncias que auxiliam no processo de coagulação do sangue. O fígado exerce papel importante na decomposição do colesterol e de medicamentos e na manutenção da glicemia.

Além de todas essas importantes funções, o fígado possui uma grande capacidade de regeneração, característica essa, descrita primeiramente por volta do século XVII. O reconhecimento científico da capacidade de recuperar sua massa, por hipertrofia e hiperplasia, sua morfologia e fisiologia, após uma agressão, foi ponto importante na abordagem terapêutica das doenças hepáticas, que são aquelas que causam inflamação ou lesão do fígado, afetando diretamente sua função, sendo classificadas de acordo com as causas, que incluem infecções, lesões, exposição a medicamentos ou à substâncias tóxicas e defeitos genéticos que causam o acúmulo de substâncias nocivas, tais como ferro ou cobre, e o efeito sobre esse órgão.

Interessados em minimizar as consequências da fibrose hepática – doença resultante de agressões sucessivas ao fígado e que podem ter como agentes o consumo excessivo de álcool ou por vírus causadores da hepatite – a equipe da pesquisadora da Universidade do Vale do Paraíba (Univap), Luciana Barros Sant’Anna, desenvolveu um estudo que teve como objetivo avaliar os benefícios de utilizar a membrana amniótica humana (MA) presente na placenta, na regeneração da fibrose e cirrose biliar, que estão entre as consequências mais comuns de doenças hepáticas crônicas. Os resultados do estudo estão em um artigo publicado na edição online da revista Cell Transplantation.

Características da  MA, tais como suas propriedades anti-inflamatória e de cicatrização, a habilidade de diferenciação multipotente e as características imunomoduladoras das suas células, chamaram a atenção dos pesquisadores para o seu potencial  uso no tratamento da fibrose.

Em parceria com o Centro di Ricerca E. Menni (CREM), da Itália, a equipe da Univap desenvolveu uma metodologia que se baseou no envolvimento do fígado de ratos com a membrana amniótica humana ainda fresca, ou seja, menos de 48 horas após a coleta no hospital.

Para testar a possível eficácia da membrana, foram utilizados nos experimentos quarenta ratos, os quais desenvolveram a fibrose induzida por meio da ligadura do ducto biliar em dois pontos. O procedimento de indução baseou-se no fato de que em muitos casos, a doença ocorre por estreitamento do ducto. Nesses animais, as primeiras lesões começaram aparecer quinze dias após o procedimento e após vinte dias a doença já se encontrava em estado avançado.

Dentre os quarenta animais do experimento, vinte receberam a membrana na superfície do fígado, após a ligadura, e a outra metade passou apenas pelo estresse cirúrgico, como uma forma de simular o uso da membrana. A análise dos resultados teve início após quatro semanas, com a remoção do fígado da metade dos animais de cada grupo. Passadas duas semanas, foram avaliados os órgãos dos animais restantes.

Os resultados mostraram uma redução significativa na gravidade da fibrose induzida pela ligação do ducto biliar  nos animais que receberam a membrana, fato que não ocorreu nos ratos do grupo controle, ou seja, houve uma progressão da fribrose. Nos animais que não receberam  a membrana amniótica a doença evoluiu para a cirrose, já nos que foram tratados com o tecido placentário, a fibrose ficou restrita  à área portal e periportal, sem apresentar sinais de cirrose.

Além dessas características, os pesquisadores constataram também uma redução de cerca de 50 %  na deposição de colágeno dos animais tratatos, quando comparados ao grupo controle.  A aplicação da membrana também se mostrou capaz de diminuir de forma acentuada a reação ductular e reduzir a área ocupada pelos miofibroblastos ativados. Todos esses achados são características encontradas nos casos de cirrose hepática.

O uso dessa membrana na forma de adesivo sobre o fígado se mostrou uma terapia bastante eficaz para inibir a progressão da fibrose hepática provocada pela ligação dos ductos biliares, assim como na proteção contra a lesão hepática associada com degeneração fibrótica. A capacidade de diferenciação multipotente das suas células é uma caracterítica que oferece grande vantagem no uso desse tecido, por ser uma ótima fonte de células-tronco, diminuindo a sua rejeição pelo organismo receptor, já que elas produzem substâncias imunomoduladoras. Os pesquisadores acreditam também que determinadas substâncias produzidas por alguns tipos de células da membrana são capazes de estimular a regeneração do tecido hepático e que, se eles conseguirem identificar e isolar as moléculas, será possível desenvolver novos medicamentos.

28/01/2013
Arlei Maturano - Equipe Biotec AHG
 

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