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Bagaço de cana vira bioplástico

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A palavra biodegradável tem sido cada vez mais utilizada e incorporada ao vocabulário da população em praticamente todo o mundo, no entanto, muito além de apenas um conceito, aos poucos a sociedade, o meio acadêmico e a indústria vem se conscientizando da necessidade de utilizar os subprodutos de alguns materiais biológicos para a produção dos chamados produtos biodegradáveis.

Essa é uma classe de materiais que pode ser decomposta pela ação de organismos vivos e o uso do termo biodegradável, geralmente pressupõe que os resíduos da decomposição não são tóxicos e nem sofrerão bioacumulação. A maior parte do lixo de origem orgânica (papéis, tecidos de algodão, couro, madeira etc.) é biodegradável, entretanto a maioria dos plásticos atuais não.

O grande potencial brasileiro de produção de etanol a partir da cana-de-açúcar gera, consequentemente grande quantidade de subprodutos, em vista disso, pesquisadores e indústrias estão se unindo para desenvolver novas alternativas de utilização desse material orgânico, uma delas é a produção de um plástico biodegradável chamado polihidroxialcanoato (PHA), por meio da ação de bactérias sobre o bagaço da cana.

Com o objetivo de aproveitar esse grande potencial, unindo a classe acadêmica e empresários, a Agência FAPESP realizou no dia 25 de julho o workshop “Produção Sustentável de Biopolímeros e Outros Produtos de Base Biológica”, a fim de estudarem as possibilidades para o desenvolvimento de produtos de base biológica. Nesse contexto, estão envolvidos a Fapesp com o BIOEN (Programa de Pesquisa em Bioenergia), o Programa Ibero-Americano de Ciência e Tecnologia para o Desenvolvimento (CYTED), iniciativa intergovernamental de cooperação entre 19 países da América Latina, Espanha e Portugal e do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP).

A grande importância ambiental de produzir o PHA, por ser um plástico biodegradável feito a partir de matéria-prima renovável, é a de poder aproveitar materiais que seriam rejeitados. Além desses benefícios, o bioplástico é biocompatível, ou seja, pode ficar em contato com o organismo de pessoas e animais, podendo também ser utilizado na fabricação de microcápsulas contendo medicamentos, de pinos ortopédicos que são degradados pelo organismo e não precisam ser retirados depois da recuperação da lesão, além de diversos produtos descartáveis.

Um importante aspecto que deve ser considerado é que além de produzir energia da cana, é possível produzir o chamado etanol celulósico, processo que ocorre a partir de uma levedura diferente da que produz o etanol comum. Esse fator deve ser considerado, pois durante a hidrólise do bagaço ocorre uma mistura de açúcares e o microrganismo que utiliza a glicose na produção do álcool comum, não metabolisa a xilose.

Apesar dos estudos que vêm sendo desenvolvidos para tentar produzir o etanol a partir da xilose, aproveitando o bagaço, é possível obter outros produtos por meio desse monossacarídeo, como o PHA por exemplo, que pode ser uma alternativa para a utilização do subproduto da cana.

Mesmo diante das boas perspectivas para o uso do bagaço de cana, é necessário transformar os resultados positivos em produtos comercializáveis em escala industrial. No entanto, para que o processo possa ser eficiente será preciso dar continuidade os estudos, como por exemplo, a modificação de bactérias de forma que elas passem a sintetizar diferentes tipos de bioplásticos.

O apoio do setor industrial será importante para controlar a composição dos bioplásticos, além da necessidade de discutir questões como a biossegurança, das propriedades do plástico e de sustentabilidade. Somando-se às questões industriais, os cientistas têm papel essencial em desenvolver microrganismos mais eficientes na produção de polímeros, por meio do isolamento de novas linhagens, produção de novos mutantes, e pela utilização das ferramentas da metagenômica e de outras áreas.

03/08/2012
Arlei Maturano - Equipe Biotec AHG
 

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