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Organizadores do ENGEMA falam sobre gestão sócio-ambiental

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O tema gestão sócio-ambiental vem ganhando importância nos meios acadêmicos, bem como em uma parcela importante do empresariado brasileiro.

Considerado inviável financeiramente por alguns, fator que vem sendo desmistificado aos poucos devido às ações surgidas na esteira das mudanças ocorridas em escala global nos últimos anos, a gestão sócio ambiental tem se mostrado uma alternativa inteligente frente aos graves problemas ambientais gerados pelo homem.

No Brasil ainda enfrenta-se uma certa resistência em adotar estratégias sócio-ambientalmente responsáveis, seja por uma questão de desinformação, seja por uma questão de ordem econômica. No entanto, com uma maior divulgação e abordagem do tema pela imprensa e sua discussão nos meios acadêmicos essa visão tende a mudar. 

Papel pioneiro possui a Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade FEA/USP, a primeira faculdade no Brasil a implantar em sua grade curricular a disciplina Gestão Empresarial e Meio Ambiente e também responsável pela idealização e realização do ENGEMA – Encontro Nacional sobre Gestão Empresarial e Meio Ambiente, evento realizado há 11 anos em parceria com a Fundação Getúlio Vargas - FGV, evento que possui como escopo incentivar a pesquisa e o debate acadêmico com o que há de mais recente sobre o tema.

Conversamos com os coordenadores do VII ENGEMA, Professores Isak Kruglianskas e Liége Mariel Petroni, a respeito da estrutura do encontro, conquistas e os desafios encontrados ao longo desses anos. A seguir, trechos da entrevista:

Biotec: Os Srs. poderiam começar a entrevista nos contando um pouco a história do ENGEMA, como ele surgiu, o que motivou a sua criação?

Prof. Isak: O ENGEMA surgiu na década de 90, época em que criamos a disciplina Gestão Empresarial e Meio Ambiente, primeira disciplina do tipo na FEA/USP. Após participar de um Congresso Internacional na Costa Rica sobre o tema tive contato com pesquisadores e profissionais da área, provenientes de vários países, o que me deu maior embasamento.  A Fundação Getúlio Vargas, na mesma época, também havia implantado a disciplina, e priorizava a questão ambiental. Como nos conhecíamos, entramos em contato e propusemos a parceria para a realização do I ENGEMA, parceria esta que dura até hoje.

Biotec: Como funciona a parceria com a FGV?

Prof. Isak: A parceria se dá de igual pra igual, porém, o local onde o evento é realizado se alterna a cada edição e a instituição que é sede fica com a coordenação principal, secretaria, logística, porém, as responsabilidades são compartilhadas.

Biotec: Quais são os critérios exigidos para um trabalho ser selecionado pela comissão organizadora do ENGEMA?

Profa. Liége: O trabalho deve estar alinhado com o título propriamente dito do ENGEMA, portanto, deve estar voltado para uma gestão empresarial que desenvolva entre as suas estratégias a variável meio ambiente, pois esse item é primordial. Neste ano elaboramos 08 temas dentro do tema principal, incluindo agronegócios, certificações ambientais, políticas públicas, etc, além de temas emergentes e dentro disso fazemos a seleção.

Biotec: Quantos trabalhos foram selecionados para esta última edição do encontro?

Profa. Liége: Foram enviados um total de 220 trabalhos, dos quais foram selecionados 147. Esse número quase triplicou em relação ao VI ENGEMA, o que me deixou muito feliz, pois mostra que esse assunto veio para ficar, não se trata de modismo. Ele foi gradativamente sendo assimilado pela sociedade científica e não científica, como empresas, que participaram ativamente enviando trabalhos, atuando no evento.

Biotec: Há 11 anos é realizado o ENGEMA. Os Srs. poderiam destacar algumas conquistas ao longo desse tempo?

Prof. Isak:  Sem dúvida nenhuma houve um amadurecimento muito grande nessa área, obviamente que o ENGEMA teve um papel positivo, mas eu não teria a pretensão de dizer que ele foi a razão, mas sim que contribuiu para o seu desenvolvimento.

Uma coisa que me chamou muito a atenção foi que no início as ONG’s se opunham de forma muito dura, acusando os palestrantes de alguma grande empresa, por exemplo, o que vem mudando, já que, hoje eles já dialogam e entendem os problemas uns dos outros. Hoje vemos as ONG’s entenderem os problemas das empresas e vice-versa.

Biotec: E quanto aos temas dos trabalhos apresentados?    Profa. Liége: Se fizermos uma análise do ENGEMA, vemos que até na 5a Edição do encontro os temas dos trabalhos enviados estavam mais voltados para uma conformidade legal, uma certificação, mostrando que as instituições e empresas envolvidas nos projetos estavam cumprindo algumas normas, etc. Hoje os temas são mais diversificados, como, por exemplo, a biotecnologia, resíduos em gestão hospitalar, agronegócio, portanto, a gestão começa a surgir mais forte do que apenas contemplando normas e leis.

Prof. Isak: Isso que a professora Liége falou é bem interessante. O termo “sócio-ambiental” passou a prevalecer. Até então se falava em gestão ambiental como uma perspectiva mais física, cumprimento de leis e certificações.

Biotec: A partir de quando tem início o desenvolvimento do tema “responsabilidade sócio-ambiental”? 

Prof. Isak:  O tema é relativamente novo, começou a ser mais utilizado aproximadamente entre 1999/2000, quando uma de nossas orientandas em doutorado o utilizou, mesmo sabendo de que se tratava de algo muito novo. O trabalho científico gerou tanta repercussão que foi publicado em jornais como o Estado de São Paulo e a Folha de São Paulo.

Biotec: Em uma escala de 0 a 10, em que nível se encontra o empresariado brasileiro com relação à adoção dos princípios sócio-ambientalmente responsáveis?

Prof. Isak: Na verdade seria melhor você perguntar como essa nota varia de setor para setor. Por exemplo, no setor químico podemos dar uma nota entre 6 e 7. 

Profa. Liége: Porque é um setor altamente impactante no meio ambiente. Se o impacto diminui ao longo da cadeia de negócios, ela é mais reativa, mas se ela possui impacto direto no meio ambiente, poderá caminhar para uma pró-atividade, portanto isso varia de setor para setor. No geral ainda temos um quadro híbrido e reativo.

Biotec: Alguma consideração final?

Profa. Liége: Não consigo ver o ambiental separado do social. Espero que no futuro as empresas, principalmente as brasileiras, tenham essa tomada de consciência de que a responsabilidade sócio-ambiental é um diferencial competitivo e que deve fazer parte de suas estratégias.   Essas estratégias devem levar em consideração que quando se faz um negócio sócio-ambiental, não é apenas um produto ou uma imagem que se vende. Existe um valor agregado a esta imagem, a este produto, que antes de mais nada é a ética.

  
11/12/2003
 

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