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Transmissão de príons por aerossóis

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Desde que foi identificada pela primeira vez em 1986 no Reino Unido, a Encefalopatia Espongiforme Bovina (Bovine Spongiform Encephalopathy - BSE) vem suscitando atenção de toda a comunidade científica, por meio de diversas pesquisas, no sentido de aperfeiçoar o conhecimento sobre a doença e suas principais características. Tão preocupantes quanto, as variantes humanas da BSE, também pertencentes ao grupo das Encefalopatias Espongiformes Transmissíveis (EET) como, por exemplo, a Doença de Creutzfeldt-Jakob (CJD), são alvo de intensos estudos.

As EET’s têm como agentes causadores as partículas protéicas infecciosas (príons) – proteína derivada da proteólise e redobramento de uma proteína cerebral normal, PrPc,  convertida em uma isoforma denominada PrPSc que causa as doenças degenerativas do sistema nervoso central. Uma das características que desperta grande interesse dos pesquisadores é a forma de transmissão dessa molécula, que pode ocorrer por diferentes formas de aplicação tais como a oral, a córnea, a intraperitoneal (ip), a intravenosa (iv), a intranasal (in), a intramuscular (im), a intralingual, a transdérmica e a intracerebral (ic), sendo está última a mais eficiente.

O veículo de transmissão aérea conhecido como aerossol não era considerado até o momento, entretanto, uma pesquisa desenvolvida pelo professor Adriano Aguzzi e por uma equipe de cientistas do hospital universitário e de várias universidades de Zurique, Suíça, e Tübingen (Alemanha) mostrou que essa forma é perfeitamente possível. O artigo com os resultados desse estudo foi publicado na edição do dia 13 de janeiro da revista PLoS Pathogens.   

Nesse artigo, os pesquisadores descrevem resultados de outros estudos que mostram que o PrPSc também foi encontrado no epitélio olfativo de pacientes com Creutzfeldt-Jakob esporádica (sDCJ, sigla em inglês). Em outros, também citados nesse estudo, constatou-se divergências com relação aos mecanismos intranasal (por administração) e aerosólico, de infecção pelos príons, demonstrando que eles ainda são pouco compreendidos. 

Para tentar entender melhor como isso ocorre, os cientistas utilizaram camundongos selvagens, puros e mestiços, e animais transgênicos (tga20) para superexpressão do PrPc, os quais desenvolveram  scrapie – doença neurodegenerativa fatal que afeta o sistema nervoso de ruminantes – após terem sido expostos a aerossóis contendo príons.

Os resultados mostraram que os animais transgênicos NSE-PrP, expressando PrPc de forma seletiva nos neurônios, mostraram-se suscetíveis aos príons veiculados pelo ar. O mesmo resultado (infecção via aerossol) também ocorreu nos animais com deficiência de linfócitos T e B, de células dos tipos NK (Natural Killer Cell) e dentríticas foliculares e também de componentes complementares. Foi constatado também, a presença de PrPc e scrapie transmitida no cérebro de camundongos que foram inoculados.

A partir desses dados, os pesquisadores puderam concluir que a exposição a aerossóis contendo príons é um modo eficiente de infecção, sendo que esta pode se dar diretamente nas vias neurais, ou seja, sem passar pela fase replicativa, obrigatória nos órgãos linfóides.

Esse estudo pode ser uma ferramenta importante para o replanejamento das questões de biossegurança em laboratórios de pesquisa e diagnóstico.

20/01/2011
Arlei Maturano - Equipe Biotec AHG
 

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